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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Siddhartha

"...de cada verdade o oposto também é verdadeiro! Assim: uma verdade é sempre dita e envolta em palavras apenas quando for unilateral. Unilateral é tudo que pode ser refletido com pensamentos e dito com palavras, tudo unilateral, tudo meio, tudo dispensado de completude, de órbita, de unidade. Quando o elevado Gotama falava do mundo em seus ensinamentos, ele teve que dividi-lo em sânsara e nirvana, em ilusão e verdade, em sofrimento e salvação. Não é possível ser feito de outra forma, não existe outro caminho para quem deseja ensinar. O mundo em si, entretanto, o existente em torno de nós e em nós, nunca é unilateral. Um ser humano ou um ato nunca é inteiramente sânsara ou inteiramente nirvana, um ser humano nunca é inteiramente santo ou inteiramente pecaminoso. Assim parece ser porque estamos sujeitos à ilusão de que o tempo é algo real. O tempo não é real, Govinda, experimentei isto muitas e muitas vezes. E, se o tempo não é real, o intervalo que parece haver entre mundo e eternidade, entre sofrimento e bem-aventurança, entre mal e bem, também é uma ilusão."

Hermann Hesse


„...von jeder Wahrheit ist das Gegenteil ebenso wahr! Nämlich so: eine Wahrheit läßt sich immer nur aussprechen und in Worte hüllen, wenn sie einseitig ist. Einseitig ist alles, was mit Gedanken gedacht und mit Worten gesagt werden kann, alles einseitig, alles halb, alles entbehrt der Ganzheit, des Runden, der Einheit. Wenn der erhabene Gotama lehrend von der Welt sprach, so mußte er sie teilen in Sansara und Nirwana, in Täuschung und Wahrheit, in Leid und Erlösung. Man kann nicht anders, es gibt keinen andern Weg für den, der lehren will. Die Welt selbst aber, das Seiende um uns her und in uns innen, ist nie einseitig. Nie ist ein Mensch oder eine Tat, ganz Sansara oder ganz Nirwana, nie ist ein Mensch ganz heilig oder ganz sündig. Es scheint ja so, weil wir der Täuschung unterworfen sind, daß Zeit etwas Wirkliches sei. Zeit ist nicht wirklich, Govinda, ich habe dies oft und oft erfahren. Und wenn Zeit nicht wirklich ist, so ist die Spanne, die zwischen Welt und Ewigkeit, zwischen Leid und Seligkeit, zwischen Böse und Gut zu liegen scheint, auch eine Täuschung.“

Hermann Hesse

Siddhartha, 57ª Ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2005. p. 113-114.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mais suave das leis (Du sanftestes Gesetz)

"Amo-te, mais suave das leis,
em que, lutando com ela, amadurecemos;
grande saudade, que não dominamos,
selva, de que nunca saímos,
cantiga, que em cada silêncio cantamos,
rede obscura,

em que os sentimentos fugidios se prendem.

Tão infinitamente grande foi o teu prelúdio
naquele dia em que nos começaste, -
e estamos tão maduros nos teus sóis,
tão expandidos e tão semeados em profundidade,
que, em homens, anjos e madonas,
agora podes te consumar mansamente.

Repousa tua mão na encosta dos céus
e suporta em silêncio o que na sombra te fazemos."

26.09.1899, Berlin-Schmargendorf  
Rainer Maria Rilke


(Du sanftestes Gesetz por Xavier Naidoo - Überfließende Himmel, 3° disco do Rilke Projekt, que reuniu vários artistas)

"Ich liebe dich, du sanftestes Gesetz,
an dem wir reiften, da wir mit ihm rangen;
du großes Heimweh, das wir nicht bezwangen,
du Wald, aus dem wir nie hinausgegangen,
du Lied, das wir mit jedem Schweigen sangen,
du dunkles Netz,

darin sich flüchtend die Gefühle fangen.

Du hast dich so unendlich groß begonnen
an jenem Tage, da du uns begannst, -
und wir sind so gereift in deinen Sonnen,
so breit geworden und so tief gepflanzt,
daß du in Menschen, Engeln und Madonnen
dich ruhend jetzt vollenden kannst.

Laß deine Hand am Hang der Himmel ruhn
und dulde stumm, was wir dir dunkel tun."

26.09.1899, Berlin-Schmargendorf
Rainer Maria Rilke


Extraído de: Das Stundenbuch (O Livro das Horas)

A Linguagem do Indizível: Juntamente com George e Hofmannsthal, Rilke (1875-1926) foi o criador de uma lírica standard (isto é, burguesa) da passagem de século na literatura alemã. "O Livro das Horas" (Das Stundenbuch), cuja monumentalidade se mostra na uniformidade de versos rimados, publicado em 1905, expressa a visão de mundo monista do poeta de uma maneira pouco usual em seu conteúdo.
Sua obra encontra ressonância no Brasil muito antes de cair em domínio público (1996), teve consequência mais remota nos poemas escritos por Vinicius de Moraes na década de 30. Além disso, passou por algumas gerações que o traduziram, como Cecília Meireles (Traduziu A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke), Lya Luft (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge), José Paulo Paes (Traduziu coletânea intitulada Poemas). Há, ainda, traduções de Paulo Rónai, Geir Campos, Dora Ferreira da Silva, Décio Pignatari, Augusto de Campos e de Manuel Bandeira. 
(em: Panorama da Literatura Alemã. Cadernos. Revista Entrelivros. n. 8, p. 60-62)