sábado, 5 de fevereiro de 2011

Demian

"A vida de cada homem é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, a insinuação de uma trilha. Nenhum homem já foi inteira e absolutamente ele mesmo; cada um, porém, pretende sê-lo, uns embrutecidos, outros mais lúcidos, cada um como pode. Cada um carrega consigo, até o fim, resquícios do seu nascimento, muco e cascas de ovo de um mundo primitivo. Alguns jamais serão gente, permanecem rã, lagarto, formiga. Alguns são gente por cima e peixe por baixo, mas cada um é um impulso da natureza rumo ao ser. E todos têm origens comuns, as mães, todos nós somos oriundos do mesmo abismo; mas cada um, tentativa e impulso das profundezas, se destina ao seu próprio fim. Podemos entender uns aos outros, mas interpretar cada um só pode a si mesmo."

Hermann Hesse


"Das Leben jedes Menschen ist ein Weg zu sich selber hin, der Versuch eines Weges, die Andeutung eines Pfades. Kein Mensch ist jemals ganz und gar er selbst gewesen; jeder strebt dennoch, es zu werden, einer dumpf, einer lichter, jeder wie er kann. Jeder trägt Reste von seiner Geburt, Schleim und Eischalen einer Urwelt, bis zum Ende mit sich hin. Mancher wird niemals Mensch, bleibt Frosch, bleibt Eidechse, bleibt Ameise. Mancher ist oben Mensch und unten Fisch. Aber jeder ist ein Wurf der Natur nach dem Menschen hin. Und allen sind die Herkünfte gemeinsam, die Mütter, wir alle kommen aus demselben Schlunde; aber jeder strebt, ein Versuch und Wurf aus den Tiefen, seinem eigenen Ziele zu. Wir können einander verstehen, aber deuten kann jeder nur sich selbst."

Hermann Hesse

Demian: Die Geschichte von Emil Sinclairs Jugend. 1a. ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag (Edição de bolso), 2007. p. 8.

domingo, 6 de junho de 2010

Ouve, Israel! (Höre, Israel!)

(À Guerra dos Seis Dias, 1967)

(...)

12.

Sobrevivestes àqueles
Que vos foram cruéis,
Agora subsiste em vós
A crueldade deles?

Vosso anseio era tornar-se
Como os povos da Europa
Que vos assassinaram.
Agora vos tornastes como eles.

Ordenastes aos derrotados:
"Tirai vossos sapatos!",
Como ao bode expiatório que
Afugentastes para o deserto

Na grande mesquita da morte
Cujas sandálias são de areia,
Mas eles não aceitaram o pecado
Que gostaríeis que pendurassem.

A marca dos pés descalços
Na areia do deserto
Resistiu aos resquícios
Das vossas bombas e tanques.

Erich Fried
















(Zum Sechstagekrieg 1967)

(...)

12

Ihr habt die überlebt
Die zu euch grausam waren
Lebt ihre Grausamkeit
In euch jetzt weiter?

Eure Sehnsucht war so zu werden
Wie die Völker Europas
Die euch mordeten
Nun seid ihr geworden wie sie

Den Geschlagenen habt ihr befohlen:
"Zieht eure Schuhe aus!"
Wie den Sündenbock habt ihr sie
In die Wüste getrieben

In die große Moschee des Todes
Deren Sandalen Sand sind
Doch sie nahmen die Sünde nicht an
Die ihr ihnen auflegen wolltet

Der Eindruck der nackten Füße
Im Wüstensand
Überdauert die Spur
Eurer Bomben und Panzer

Erich Fried

Do livro Gedichte nach dem Holocaust, 1974. Sobre o episódio ocorrido na década de 60, quando inúmeros prisioneiros de guerra egípcios foram obrigados a ir para o deserto descalços. Na areia quente, a maioria morreu.

sábado, 17 de abril de 2010

Ecce Homo

Sim, eu sei de onde venho!
Insaciado como a chama 
Incandesço e me consumo.
Tudo o que toco vira luz,
Carvão, tudo o que deixo:
Por certo, chama eu sou.

Friedrich Nietzsche













Ja! Ich weiß, woher ich stamme!
Ungesättigt gleich der Flamme
Glühe und verzehr' ich mich.
Licht wird alles, was ich fasse,
Kohle alles, was ich lasse:
Flamme bin ich sicherlich.


Friedrich Nietzsche

Extraído de: Die fröhliche Wissenschaft ("A Gaia Ciência")

domingo, 14 de março de 2010

Degraus (Stufen)

Assim como toda flor perde o viço e como toda juventude
Cede à idade, floresce cada degrau da vida,
Floresce toda sabedoria também e toda virtude
A seu tempo, e não pode durar para sempre.
O coração deve, em cada chamado da vida,
Estar pronto para a despedida e para o recomeço,
Para se dar, na valentia e sem qualquer
Luto, a outras novas ligações.
E em todo começo reside um encanto próprio
Que nos protege e nos ajuda a viver.

Transponhamos serenos espaço a espaço
E a nenhum nos prendamos qual a uma pátria.
O espírito do mundo não quer nos atar nem comprimir,
Ele quer elevar-nos degrau a degrau, alastrar-nos.
Mal nos habituamos a ser íntimos
De um ambiente, ameaça o relaxar-se.
Só quem está pronto para partir e viajar
Poderá eludir o hábito paralisante.

Acaso a hora da morte ainda nos envie
Ao encontro de novos espaços,
Jamais há de cessar o clamor da vida por nós...
Eia, pois, coração, despede-te e convalesce!

Hermann Hesse


Wie jede Blüte welkt und jede Jugend
Dem Alter weicht, blüht jede Lebensstufe,
Blüht jede Weisheit auch und jede Tugend
Zu ihrer Zeit und darf nicht ewig dauern.
Es muß das Herz bei jedem Lebensrufe
Bereit zum Abschied sein und Neubeginne,
Um sich in Tapferkeit und ohne Trauern
In andre, neue Bindungen zu geben.
Und jedem Anfang wohnt ein Zauber inne,
Der uns beschützt und der uns hilft, zu leben.

Wir sollen heiter Raum um Raum durchschreiten,
An keinem wie an einer Heimat hängen,
Der Weltgeist will nicht fesseln uns und engen,
Er will uns Stuf' um Stufe heben, weiten.
Kaum sind wir heimisch einem Lebenskreise
Und traulich eingewohnt, so droht Erschlaffen,
Nur wer bereit zu Aufbruch ist und Reise,
Mag lähmender Gewöhnung sich entraffen.

Es wird vielleicht auch noch die Todesstunde
Uns neuen Räumen jung entgegen senden,
Des Lebens Ruf an uns wird niemals enden...
Wohlan denn, Herz, nimm Abschied und gesunde!

Hermann Hesse

Poema do livro "O Jogo das Contas de Vidro" (Das Glasperlenspiel). Sämtliche Werke. Vol. 10. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2002. p. 366.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mar (Meer)

Quando se vem ao mar
deve-se começar a calar
deve-se perder o fio
dos últimos rebentos

e inspirar a espuma de sal
e o assobio agudo do vento
e expirar
e de novo inspirar

Quando se ouve a areia serrar
e o arrastar das pedras miúdas
em longas ondas
deve-se deixar de dever ser
e não querer mais querer
só mar

Só mar

Erich Fried (1921-1988)



Wenn man ans Meer kommt
soll man zu schweigen beginnen
bei den letzten Grashalmen
soll man den Faden verlieren

und den Salzschaum
und das scharfe Zischen des Windes einatmen
und ausatmen
und wieder einatmen

Wenn man den Sand sägen hört
und das Schlurfen der kleinen Steine
in langen Wellen
soll man aufhören zu sollen
und nichts mehr wollen wollen
nur Meer

Nur Meer

Erich Fried (1921-1988)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diante da Lei (Vor dem Gesetz)

Diante da Lei havia um guardião. A esse guardião dirigiu-se um homem do interior e lhe pediu que o deixasse entrar na Lei. O guardião disse, entretanto, que não podia lhe conceder a entrada naquela ocasião. O homem pensou e depois perguntou se ele então poderia entrar mais tarde. "É possível," disse o guardião, "mas não agora." Dado que o portão para a Lei fica aberto como de hábito e o guardião vigiava a sua entrada, o homem abaixou-se para ver o interior. Quando o guardião percebeu, riu e lhe disse: "Se tanto te seduz, tenta entrar, malgrado a minha proibição. Porém, presta bem atenção: eu sou poderoso. E sou apenas o mais reles dos guardiães. Em cada salão há um guardião mais poderoso que o outro. Eu sequer suporto o olhar do terceiro." Não contava com tais dificuldades o homem do interior; a Lei deveria ser acessível para todos e a toda hora, pensou ele, mas ao observar com rigor o guardião no seu casaco de pele, o seu nariz grande e agudo, a barba escura, tênue, comprida e desarrumada, achou melhor esperar pela autorização. O guardião deu-lhe um banco e o deixou sentar-se perto. Lá permaneceu dias e anos. Tentou entrar várias vezes, cansando o guardião com seus pedidos. O guardião lhe fazia pequenos interrogatórios com certa frequência, indagava-lhe sobre sua terra natal e sobre muitas outras coisas, eram perguntas despropositadas, como se fosse o trato de bons cavalheiros e enfim lhe dizia mais uma vez que ainda não poderia deixá-lo entrar. O homem, que com muito de valor se equipou para sua viagem, serviu-se de tudo para subornar o guardião. Ele tudo aceitava, mas lhe dizia: "Apenas aceito para não achares que foste negligenciado." Durante os vários anos, o homem observou o guardião quase incessantemente. Esqueceu-se dos demais guardiães, como se aquele fosse o único obstáculo para entrar na Lei. Nos primeiros anos, ele maldizia o lamentável acaso com ímpeto e em voz alta, mais tarde, à medida em que envelhecia, resmungava de si para si. Tornou-se pueril e, como já tinha passado anos estudando o guardião e reconhecia até as pulgas no colarinho de seu casaco, apelou a elas para que lhe ajudassem a persuadir o guardião. Sua vista por fim se esvaía e ele não sabia ao certo se escurecia à sua volta ou se eram os olhos que o iludiam. Pôde, todavia, bem reconhecer um clarão no escuro, que inextinguível irrompia portão afora. Ele já não vive mais. Antes da sua morte, reuniram-se na sua mente todas as experiências do período para uma pergunta, que até então ele não havia feito ao guardião. Fez-lhe sinal, pois não conseguia mais erguer o corpo enrijecido. O guardião teve que se inclinar em sua direção, já que a diferença de estatura tinha se acentuado para dissabor do homem. "O que ainda queres saber?" perguntou o guardião, "tu és insaciável." "Todos aspiram à Lei," disse o homem, "como pode, em tantos anos, ninguém além de mim ter buscado entrar nela?" O guardião reconheceu que o homem já estava no fim e, para alcançar ainda a audição extenuante, vociferou: "Aqui ninguém pôde entrar antes porque esta entrada era destinada somente a ti. Agora já posso ir-me e trancá-la."

Franz Kafka, 1914. 


Vor dem Gesetz steht ein Türhüter. Zu diesem Türhüter kommt ein Mann vom Lande und bittet um Eintritt in das Gesetz. Aber der Türhüter sagt, daß er ihm jetzt den Eintritt nicht gewähren könne. Der Mann überlegt und fragt dann, ob er also später werde eintreten dürfen. "Es ist möglich," sagt der Türhüter, "jetzt aber nicht." Da das Tor zum Gesetz offensteht wie immer und der Türhüter beiseite tritt, bückt sich der Mann, um durch das Tor in das Innere zu sehn. Als der Türhüter das merkt, lacht er und sagt: "Wenn es dich so lockt, versuche es doch, trotz meines Verbotes hineinzugehn. Merke aber: Ich bin mächtig. Und ich bin nur der unterste Türhüter. Von Saal zu Saal stehn aber Türhüter, einer mächtiger als der andere. Schon den Anblick des dritten kann nicht einmal ich mehr ertragen." Solche Schwierigkeiten hat der Mann vom Lande nicht erwartet; das Gesetz soll doch jedem und immer zugänglich sein, denkt er, aber als er jetzt den Türhüter in seinem Pelzmantel genauer ansieht, seine große Spitznase, den langen, dünnen, schwarzen tatarischen Bart, entschließt er sich, doch lieber zu warten, bis er die Erlaubnis zum Eintritt bekommt. Der Türhüter gibt ihm einen Schemel und läßt ihn seitwärts von der Tür sich niedersetzen. Dort sitzt er Tage und Jahre. Er macht viele Versuche, eingelassen zu werden, und ermüdet den Türhüter durch seine Bitten. Der Türhüter stellt öfters kleine Verhöre mit ihm an, fragt ihn über seine Heimat aus und nach vielem andern, es sind aber teilnahmslose Fragen, wie sie große Herren stellen, und zum Schlusse sagt er ihm immer wieder, daß er ihn noch nicht einlassen könne. Der Mann, der sich für seine Reise mit vielem ausgerüstet hat, verwendet alles, und sei es noch so wertvoll, um den Türhüter zu bestechen. Dieser nimmt zwar alles an, aber sagt dabei: "Ich nehme es nur an, damit du nicht glaubst, etwas versäumt zu haben." Während der vielen Jahre beobachtet der Mann den Türhüter fast ununterbrochen. Er vergißt die andern Türhüter und dieser erste scheint ihm das einzige Hindernis für den Eintritt in das Gesetz. Er verflucht den unglücklichen Zufall, in den ersten Jahren rücksichtslos und laut, später, als er alt wird, brummt er nur noch vor sich hin. Er wird kindisch, und, da er in dem jahrelangen Studium des Türhüters auch die Flöhe in seinem Pelzkragen erkannt hat, bittet er auch die Flöhe, ihm zu helfen und den Türhüter umzustimmen. Schließlich wird sein Augenlicht schwach, und er weiß nicht, ob es um ihn wirklich dunkler wird, oder ob ihn nur seine Augen täuschen. Wohl aber erkennt er jetzt im Dunkel einen Glanz, der unverlöschlich aus der Türe des Gesetzes bricht. Nun lebt er nicht mehr lange. Vor seinem Tode sammeln sich in seinem Kopfe alle Erfahrungen der ganzen Zeit zu einer Frage, die er bisher an den Türhüter noch nicht gestellt hat. Er winkt ihm zu, da er seinen erstarrenden Körper nicht mehr aufrichten kann. Der Türhüter muß sich tief zu ihm hinunterneigen, denn der Größenunterschied hat sich sehr zu ungunsten des Mannes verändert. "Was willst du denn jetzt noch wissen?" fragt der Türhüter, "du bist unersättlich." "Alle streben doch nach dem Gesetz," sagt der Mann, "wieso kommt es, daß in den vielen Jahren niemand außer mir Einlaß verlangt hat?" Der Türhüter erkennt, daß der Mann schon an seinem Ende ist, und, um sein vergehendes Gehör noch zu erreichen, brüllt er ihn an: "Hier konnte niemand sonst Einlaß erhalten, denn dieser Eingang war nur für dich bestimmt. Ich gehe jetzt und schließe ihn."

Franz Kafka, 1914.


De: Erzählungen (Contos). Frankfurt am Main: Fischer Verlag: 1975, p.120s.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Noite de Luar (Mondnacht)

Foi como se o céu
serenamente beijasse a terra,
E que ela, no resplendor de flores,
Com ele tivesse de sonhar.

O ar passou pelos campos,
Leve se agitavam as espigas,
Manso sussurravam os bosques,
Tão estrelada era a noite.

E minh'alma espraiou
suas vastas asas,
Voou pelas terras plácidas,
Como se voasse p'ra casa.

Joseph von Eichendorff, 1837.


Es war, als hätt der Himmel
Die Erde still geküsst,
Dass sie im Blütenschimmer
Von ihm nun träumen müsst.

Die Luft ging durch die Felder,
Die Ähren wogten sacht,
Es rauschten leis die Wälder,
So sternklar war die Nacht.

Und meine Seele spannte
Weit ihre Flügel aus,
Flog durch die stillen Lande,
als flöge sie nach Haus.

Joseph von Eichendorff, 1837.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Perto da Amada (Nähe des Geliebten)

Penso em ti, quando o brilho do sol se me
Irradia no mar;
Penso em ti, quando o reflexo da lua se
Desenha na fonte.

Vejo-te, quando no caminho distante
A poeira se eleva;
Na noite profunda, quando na ponte estreita
O viajante estremece.

Ouço-te, quando com surdo marulho
A onda se alça.
Ao bosque sereno costumo ir para escutar
Quando tudo silencia.

Estou contigo, ainda que estejas tão longe,
Estás perto de mim!
O sol imerge, logo hão-de brilhar-me estrelas.
Ah, se estivesses aqui!

Johann Wolfgang von Goethe, 1795.
 



Ich denke Dein, wenn mir der Sonne Schimmer
Vom Meere strahlt;
Ich denke dein, wenn sich des Mondes Flimmer
In Quellen malt.

Ich sehe dich, wenn auf dem fernen Wege
Der Staub sich hebt;
In tiefer Nacht, wenn auf dem schmalen Stege
Der Wandrer bebt.

Ich höre dich, wenn dort mit dumpfem Rauschen
Die Welle steigt.
Im stillen Haine geh ich oft zu lauschen,
Wenn alles schweigt.

Ich bin bei dir, du seist auch noch so ferne,
Du bist mir nah!
Die Sonne sinkt, bald leuchten mir die Sterne.
O wärst du da!

Johann Wolfgang von Goethe, 1795.
Poema de 4 estrofes que mais tarde recebeu a melodia de Schubert: D. 162, Op. 5, N. 2.

domingo, 22 de novembro de 2009

O Lobo da Estepe (Der Steppenwolf)

"Ah, é difícil encontrar esse vestígio divino no meio dessa vida que levamos, no meio dessa época tão satisfeita, tão burguesa, tão sem vida, ao se contemplar essa arquitetura, essas lojas, essa política, essa gente! Como eu não haveria de ser um lobo da estepe e um ríspido eremita em meio a um mundo de cujas aspirações eu não compartilho, cujos prazeres nada significam para mim! (...) E o que, porém, me ocorre nos meus escassos momentos de felicidade, o que para mim é deleite, vivência, êxtase e elevação o mundo conhece e busca e ama* quando muito em poemas, na vida acha loucura. E se for o caso de o mundo ter razão, se essa música nos cafés, essas diversões de massa americanas com tão pouca gente contente tiverem razão, então eu não tenho razão, então eu sou louco, então sou realmente o lobo da estepe, tal qual costumava me chamar, o animal perdido em um mundo que lhe é estranho e incompreensível*, onde não mais encontra sua morada, ar, nem alimento."

Hermann Hesse
 



"Ach, es ist schwer, diese Gottesspur zu finden inmitten dieses Lebens, das wir führen, inmitten dieser so sehr zufriedenen, so sehr bürgerlichen, so sehr geistlosen Zeit, im Anblick dieser Architekturen, dieser Geschäfte, dieser Politik, dieser Menschen! Wie sollte ich nicht ein Steppenwolf und ruppiger Eremit sein inmitten einer Welt, von deren Zielen ich keines teile, von deren Freuden keine zu mir spricht! (...) Und was hingegen mir in meinen seltnen Freudenstunden geschieht, was für mich Wonne, Erlebnis, Ekstase und Erhebung ist, das kennt und sucht und liebt die Welt höchstens in Dichtungen, im Leben findet sie es verrückt. Und in der Tat, wenn die Welt recht hat, wenn diese Musik in den Cafés, diese Massenvergnügungen, diese amerikanischen, mit so wenigem zufriedenen Menschen recht haben, dann habe ich unrecht, dann bin ich verrückt, dann bin ich wirklich der Steppenwolf, den ich mich oft nannte, das in eine ihm fremde und unverständliche Welt verirrte Tier, das seine Heimat, Luft und Nahrung nicht mehr findet."

Hermann Hesse

Do capítulo
Harry Hallers Aufzeichnungen (Anotações de Harry Haller). Der Steppenwolf. 11a. ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2005. p. 39-40.


"...É obra representativa de uma geração de leitores de Nietzsche, críticos da cultura que se consolidava sob a industrialização e as formas de organização da sociedade de massas no início do século XX. (...) Foi também obra de referência e identificação para os movimentos estudantis dos anos 60, por figurar a individualidade artística inconformada com o sistema. Apesar de uma composição aparentemente caótica da obra, com múltiplas perspectivas narrativas, a inserção de um ensaio e a série de visões na parte final do livro, a crítica identificou aí uma consistente estrutura musical próxima à sonata. O protagonista Harry Haller, o 'lobo da estepe', é um cinqüentão solitário de psique neurótica, em crise existencial. Recolhido ao seu escritório, imagina diálogos com Goethe, ocupa-se de Mozart; à noite, perde-se em bares. Quando, enfim, compreende a complexidade da psique humana, Haller passa a encontrar figuras correspondentes às categorias da psicologia de Jung, como Hermine, a anima que o guia pela vida da cidade e o apresenta ao casal Pablo e Maria."

Sinopse A sonata de Hesse em: Panorama da Literatura Alemã. Cadernos. Revista Entrelivros. n. 8, p. 70.
  1. Note-se o polissíndeto aqui. "Und was hingegen (...) Ekstase und Erhebung (...) das kennt und sucht und liebt..." ("E o que, porém [...] êxtase e elevação [...] o mundo conhece e busca e ama...") O uso abusivo do conectivo no texto, espaçado no resto do texto e mais próximo nesse trecho, tem valor estilístico. A figura confere cadência à leitura e evidencia o tom de desabafo que o autor quis atribuir à personagem;
  2. "o animal perdido em um mundo que lhe é estranho e incompreensível": foi necessário reorganizar o período, que no original está com a ordem vertida em um sintagma nominal (Nominalgruppe), no caso uma oração completa intercalada entre o artigo "o" e o sujeito "animal perdido", qualificando-o: "em um mundo que lhe é estranho e incompreensível". Na adaptação da lógica em alemão, que não cabe no português, a última oração, que fazia referência a "animal", e não a "mundo" ("que não encontra sua morada...") também teve de ser alterada para guardar coesão com "mundo" por meio do advérbio de lugar "onde", mantido invariavelmente o sujeito (animal).

sábado, 21 de novembro de 2009

A si (An sich)

Sê todavia intrépido! Não te dês por vencido!
Não cedas à fortuna, sê superior à inveja.
Alegra-te contigo e não lamentes
Se contra ti conspiraram sorte, lugar e tempo.

O que te aflige e te deleita toma por eleito,
Aceita a tua fatalidade e não te arrependas de nada.
Faz o que deve ser feito antes que t'ordenem.
Aquilo pelo que ainda esperas sempre está para nascer*.

O que se lamenta, o que se louva? Cada um é sua
Própria desgraça e fortuna. Contempla todas as coisas:
Tudo isso está em ti, abandona tua ilusão fútil,

E antes de seguires adiante, volta para dentro de ti.
Quem é senhor de si e a si consegue dominar
A ele o vasto mundo e tudo o mais se sujeita.

Paul Fleming (1609-1640)



Sei dennoch unverzagt! Gib dennoch unverloren!
Weich keinem Glücke nicht, steh höher als der Neid,
Vergnüge dich an dir, und acht es für kein Leid,
Hat sich gleich wider dich Glück, Ort und Zeit verschworen.

Was dich betrübt und labt, halt alles für erkoren,
Nimm dein Verhängnis an, lass alles unbereut.
Tu, was getan sein muss, und eh man dirs gebeut.
Was du noch hoffen kannst das wird noch stets geboren.

Was klagt, was lobt man doch? Sein Unglück und sein Glücke
Ist sich ein jeder selbst. Schau alle Sachen an:
Dies alles ist in dir. Lass deinen eitlen Wahn,

Und eh du fürder gehst, so geh in dich zurücke.
Wer sein selbst Meister ist, und sich beherrschen kann,
Dem ist die weite Welt und alles untertan.

Paul Fleming (1609-1640)

Fleming representa com Gryphius e Christian von Hofmannswaldau líricos significativos do barroco alemão. Além da preocupação com a tradução em si, há outras considerações: a primeira, por se tratar de um soneto, é com a rima, que infelizmente não foi mantida. Observem no original os quartetos (versos terminados em en-eid-eid-en e en-eut-eut-en) e os tercetos (ambos em e-an-an); a segunda é com o vocabulário que, embora reproduza anseios e aconselhamentos atemporais, é explicitamente poético e marca uma época (século XVII).


  1. Título: "A si" ou "A si próprio" (An sich) evidencia o tom reflexivo do soneto ou o seu chamado à reflexão;
  2. Aquilo pelo que ainda esperas sempre está para nascer: Verso muito expressivo do segundo quarteto. Era possível traduzi-lo mais próximo do sentido em português como "aquilo pelo que ainda nutres esperança pode ocorrer a qualquer momento". Foi feita, no entanto, a opção pelo que aqui se encontra devido ao original (...das wird noch stets geboren), que menciona "nascer" (geboren werden), como uma gestação de período incerto que porta o novo. Por isso não há de se esperar apenas, é fazer o que deve ser feito, preparar-se para o parto.