sábado, 30 de julho de 2011

Como o medo da islamização ameaça a Europa (Wie die Angst vor der Islamisierung Europa bedroht)

*Thorbjørn Jagland
O assassino Breivik é cristão, mas as semelhanças entre ele e o terror do Oriente muçulmano são evidentes. Não se fala, apesar disso, em um terrorismo cristão. Isso é bom, apenas não se deveria mais se chamar atentados cometidos por muçulmanos de “terrorismo islâmico”.
Desde os ataques em Oslo e em Utøya, inúmeros jornalistas me perguntaram: O que irá acontecer na Noruega? Poderemos ainda reconhecer o país depois de tudo? E poderia ocorrer algo semelhante em outros países?
Respondi então, primeiro, que a Noruega permanecerá reconhecível. A Noruega irá permanecer uma sociedade aberta, caracterizada pela tolerância e pela luta em prol dos direitos humanos e da paz. Eu ainda acredito. Como aprendi, porém, mais sobre terroristas, comecei a acrescentar: eu também espero que a Noruega não esteja mais inalterada como antes. Devemos nos tornar mais conscientes do que é o terrorismo, de onde ele vem e - não menos importante - de como podemos falar sobre ele.
Depois de tudo o que aconteceu, não deveria ser mais possível, por exemplo, chamar os atentados cometidos por muçulmanos de “terrorismo islâmico”. Nem em sonho se chegaria a taxar Breivik de terrorista cristão, simplesmente porque ele se vê como cristão. A violência do IRA na Irlanda do Norte jamais foi chamada de cristã. Os atos de muçulmanos, entretanto, vinculamos imediatamente ao islã como religião; o conceito do islamismo radical floresceu no debate norueguês. Breivik, porém, representa um cristianismo radical?
Não, não é isso. Temos que libertar, em primeiro lugar, a religião desse fardo: nem no cristianismo, nem no islamismo existe algo que justifique o terrorismo. Se as religiões são, entretanto, descritas como potencialmente terroristas, então é a “mentalidade das cruzadas” que alimenta isso. Quando, exclusivamente por meio do uso de palavras, relacionamos islamismo com terrorismo, polarizamos o debate; o medo dos muçulmanos e da islamização são a consequência. Como em um pesadelo, esse medo galopa Europa afora - essa é para mim a maior ameaça interna que enfrentamos.
BREIVIK NÃO É DIFERENTE DE HITLER
Os políticos dizem que o multiculturalismo teria falhado; seria desnecessário dizer que a consequência dessa percepção significa, em última análise, que muçulmanos e outros que não se adaptam teriam que partir. Um ministro francês chegou até a dizer que mal se podia andar de ônibus “por causa desses muçulmanos todos”. Aonde ele queria chegar com isso? Para alguém como Breivik, isso é um convite a dar a resposta que ele deu. Breivik já se enxerga como salvador idealista. Ele matou para nos salvar do perigo muçulmano.
Tenho lido que alguns investigadores entendem que não se deve utilizar as velhas teorias sobre radicalismo para se categorizar Breivik - porque ele se distancia de Hitler, porque ele demonstra simpatia por Israel. Ainda assim: ele não é diferente de Hitler. Ele iria, se pudesse, limpar a Europa de muçulmanos da mesma forma como Hitler a quis tornar “livre de judeus”.
Também são evidentes as semelhanças entre o terror de Breivik e o do Oriente muçulmano. A mesma visão estimula Breivik e a Al-Qaeda: livrar o próprio mundo dos invasores. Os métodos também são os mesmos, a violência impiedosa, mesmo contra aqueles da própria comunidade, vistos como traidores. De fato, nos países islâmicos, muito mais muçulmanos pereceram, vítimas dessa forma de violência do que estrangeiros - e Breivik não atacou nenhum muçulmano, mas aqueles que eram favoráveis a que muçulmanos vivessem aqui.
O MULTICULTURALISMO VEIO PARA FICAR
Por isso, vamos libertar a religião dos cruzados; impedir que eles possam se associar com a religião por meio do nosso uso da linguagem! Todos os líderes religiosos que trabalham para a reconciliação das religiões têm de se apoiar e encorajar uns aos outros. Os políticos também devem assumir mais responsabilidade. Por isso que, como Secretário-Geral do Conselho da Europa, convoquei um “Grupo de Sábios” para analisar como podemos conviver em um mundo multicultural, dirigido pelo então ministro alemão de Relações Exteriores Joschka Fischer. Visitei com o grupo várias capitais europeias para apresentar seu relatório “Convivência na Europa do Século XXI”.
Ocorreu-me quanto peso os interlocutores davam à responsabilidade dos políticos e da mídia, o quanto frisavam sua responsabilidade para explicar às pessoas a realidade: o multiculturalismo veio para ficar;  A Europa sempre foi um continente de muitas religiões e etnias. E sempre que não fomos capazes de conviver com esse fato, ele nos levou às catástrofes mais terríveis. Daí porque não devemos apenas aceitar a multiculturalidade, temos que mudar a nossa forma de pensar, a nossa mentalidade: temos que aprender a ver os benefícios da nossa diversidade.
Também defendo a expansão do conceito europeu de segurança, que tem focado principalmente assuntos militares. Chamei isso de “segurança profunda”, ela depende de como somos capazes de conviver sem escalar conflitos. Tal segurança está profundamente ancorada na sociedade. A base para isso são os valores que unem a todos nós na Europa, consagrados na Convenção Europeia de Direitos Humanos. Eles contêm direitos e deveres: você tem o direito de proteger a sua identidade étnica e religiosa, mas você tem o dever de respeitar os valores comuns europeus.
O NACIONALISMO EM NOVA FORMA
A Europa recebeu uma advertência da Noruega. Provavelmente, Breivik agiu sozinho. Receio, entretanto, que tenha criado uma tendência. Enquanto todos nós falávamos sobre muçulmanos e islamismo radical, essa tendência se formou em silêncio. Vemos o nacionalismo em nova forma, mas também vale para ele o velho ditado: o nacionalismo é o mal e leva ao mal.
A Chanceler alemã Angela Merkel disse algo bem importante: a xenofobia é um desafio europeu. E, portanto, também é acertado que o Primeiro-Ministro norueguês Jens Stoltenberg tenha sinalizado exatamente o oposto ao Presidente Norte-Americano George W. Bush após o 11 de Setembro de 2001, cuja mensagem de retribuição foi: “ou você está comigo ou contra mim”, o que dividiu o mundo.
Por isso seu sucessor Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz, porque ele imediatamente começou a construir pontes. A Europa deveria seguir o curso de Stoltenberg de construir pontes na sociedade, apoiada por nossas instituições democráticas. Não podemos mudar Breivik, mas nossa segurança está nas relações humanas que somos capazes de construir.
*O norueguês Thorbjørn Jagland, 60 anos, é Secretário-Geral do Conselho da Europa e dirige em Oslo o comitê que confere o Prêmio Nobel da Paz.


Extraído do Süddeutsche Zeitung de 29 de julho de 2011. 
Copyright: sueddeutsche.de GmbH / Süddeutsche Zeitung GmbH


*Thorbjørn Jagland

Der Attentäter Breivik ist Christ, doch die Ähnlichkeiten zwischen ihm und dem Terror aus dem muslimischen Orient sind evident. Trotzdem spricht keiner von christlichem Terrorismus. Das ist gut, nur sollte endlich keiner mehr Attentate, die Muslime begehen, "islamischen Terrorismus" nennen.


Seit den Anschlägen in Oslo und Utøya haben mich unzählige Journalisten gefragt: Was wird geschehen in Norwegen? Werden wir das Land nach all dem noch wiedererkennen können? Und könne Ähnliches auch in anderen Ländern passieren?

Ich habe dann zunächst geantwortet, dass Norwegen wiedererkennbar bleiben wird. Norwegen wird eine offene Gesellschaft bleiben, gekennzeichnet von Toleranz und dem Kampf für Menschenrechte und Frieden. Das glaube ich immer noch. Doch als ich mehr über den Terroristen erfuhr, begann ich hinzuzufügen: Ich hoffe auch, dass Norwegen nicht mehr unverändert so sein wird wie zuvor. Wir müssen uns stärker darüber bewusst werden, was Terrorismus ist, woher er kommt und - nicht zuletzt - wie wir über ihn sprechen.

Nach all dem sollte es zum Beispiel nicht mehr möglich sein, Attentate, die Muslime begehen, "islamischen Terrorismus" zu nennen. Im Traum würde niemand darauf kommen, Breivik als christlichen Terroristen zu bezeichnen, bloß weil er sich selber als Christen sieht. Nie haben wir die Gewalt der IRA in Nordirland christlich genannt. Die Taten von Muslimen aber haben wir sofort mit dem Islam als Religion verbunden; der Begriff vom radikalen Islam blühte in der norwegischen Debatte. Aber steht Breivik für ein radikales Christentum?

Nein, das tut er nicht. Wir müssen also als Erstes die Religion von dieser Last befreien: Weder im Christentum noch im Islam gibt es irgendetwas, das Terrorismus rechtfertigt. Wenn Religionen trotzdem als potentiell terroristisch beschrieben werden, dann fördert das die Kreuzzugsmentalität. Wenn wir, allein durch den Wortgebrauch, den Islam mit Terrorismus verbinden, polarisieren wir die Debatte; die Angst vor Muslimen und vor der Islamisierung sind die Folge. Wie in einem Albtraum galoppiert diese Angst durch Europa - dies ist für mich die größte innere Bedrohung, vor der wir stehen.

BREIVIK IST NICHT ANDERS ALS HITLER

Politiker reden davon, dass der Multikulturalismus gescheitert sei; überflüssig zu sagen, dass die Konsequenz dieser Sichtweise letztlich bedeutet, dass Muslime und andere, die sich nicht anpassen, zu gehen hätten. Ein französischer Minister hat sogar schon gesagt, man könne kaum noch Bus fahren - wegen all dieser Muslime. Was wollte er damit erreichen? Für jemanden wie Breivik ist das eine Einladung, die Antwort zu geben, die er gegeben hat. Breivik sieht sich als idealistischer Retter. Er tötet, um uns alle vor der muslimischen Gefahr zu retten.

Ich lese, dass manche Ermittler sagen, man sollte Breivik nicht mit den alten Radikalismus-Theorien kategorisieren - weil er sich von Hitler distanziert, weil er Sympathie für Israel zeigt. Aber doch: Er ist nicht anders als Hitler. Er würde, wenn er könnte, Europa in gleicher Weise von Muslimen säubern, wie Hitler Europa "judenfrei" machen wollte.

Es sind auch die Ähnlichkeiten zwischen Breiviks Terror und dem aus dem muslimischen Orient evident. Breivik und al-Qaida treibt dieselbe Vision: die eigene Welt von Eindringlingen zu befreien. Auch die Methoden sind die gleichen, die mitleidlose Gewalt, auch gegen diejenigen der eigenen Gemeinschaft, die man als Verräter sieht. Es sind ja in den muslimischen Ländern viel mehr Muslime dieser Form der Gewalt zum Opfer gefallen als Ausländer - und auch Breivik attackierte keine Muslime, sondern jene, die dafür waren, dass Muslime hier leben.

DER MULTIKULTURALISMUS IST HIER, UM ZU BLEIBEN

So lasst uns die Religion von den Kreuzzüglern befreien; verhindern wir, dass sie sich durch unseren Sprachgebrauch mit der Religion verbinden können! Alle religiösen Führer, die für die Versöhnung der Religionen arbeiten, müssen sich gegenseitig unterstützen und ermutigen. Auch die Politiker müssen mehr Verantwortung übernehmen. Deshalb hatte ich als Generalsekretär des Europarats eine "Gruppe der Weisen" einberufen, um zu analysieren, wie wir in einer multikulturellen Welt zusammenleben können, geleitet vom ehemaligen deutschen Außenminister Joschka Fischer. Zahlreiche europäische Hauptstädte habe ich mit der Gruppe besucht, um deren Bericht "Zusammenleben im Europa des 21. Jahrhunderts" vorzustellen.

Es hat mich getroffen, wie viel Gewicht alle Gesprächspartner der Verantwortung von Politikern und Medien gaben, wie sehr sie deren Verantwortung betonten, den Menschen die Wirklichkeit zu erklären: Der Multikulturalismus ist hier, um zu bleiben; Europa war schon immer ein Kontinent der vielen Religionen und Ethnien. Und immer, wenn wir es nicht schafften, damit zu leben, führte dies zu den furchtbarsten Katastrophen. Wir müssen deshalb Multikulturalität nicht nur hinnehmen. Wir müssen unsere Denkweisen, unsere Mentalität ändern: Wir müssen die Vorteile aus unserer Verschiedenheit sehen lernen.

Ich bin auch dafür eingetreten, das europäische Sicherheitskonzept zu erweitern, das sich vor allem auf militärische Dinge fokussiert. Ich habe dies die "tiefe Sicherheit" genannt; sie hängt davon ab, wie wir zusammenleben können, ohne dass Konflikte eskalieren. Eine solche Sicherheit ist tief in der Gesellschaft verankert. Die Basis dafür sind die Werte, die uns alle in Europa verbinden, niedergelegt in der europäischen Menschenrechtskonvention. Rechte enthalten sie und Pflichten: Du hast das Recht, deine religiöse und ethnische Identität zu wahren. Aber du hast die Pflicht, die gemeinsamen europäischen Werte zu achten.

NATIONALISMUS IN NEUER FORM

Europa hat eine Warnung aus Norwegen erhalten. Wahrscheinlich hat Breivik alleine gehandelt, ich fürchte aber, er hat einen Trend gesetzt. Während wir alle eifrig über Muslime und radikalen Islam geredet haben, hat dieser Trend sich in aller Stille geformt. Wir sehen einen Nationalismus in neuer Form, aber auch für ihn gilt das alte Sprichwort: Nationalismus ist von Übel und führt zu Übel.

Bundeskanzlerin Angela Merkel hat etwas sehr Wichtiges gesagt: Ausländerhass ist eine europäische Herausforderung. Und deshalb ist es auch richtig, dass Norwegens Premierminister Jens Stoltenberg exakt das gegenteilige Zeichen gesetzt hat als der amerikanische Präsident George W. Bush nach dem 11. September 2001. Dessen Botschaft der Vergeltung war: Sei für mich, oder du bist gegen mich. Das hat die Welt gespalten.

Sein Nachfolger Barack Obama erhielt auch deshalb den Friedensnobelpreis, weil er sofort begann, Brücken zu bauen. Europa sollte dem Kurs Stoltenbergs folgen, Brücken in der Gesellschaft zu bauen, unterstützt durch unsere demokratischen Institutionen. Breivik können wir nicht ändern. Unsere Sicherheit aber liegt in den menschlichen Beziehungen, die aufzubauen wir fähig sind.

*Der Norweger Thorbjørn Jagland, 60, ist Generalsekretär des Europarats und leitet in Oslo das Komitee, das den Friedensnobelpreis vergibt. (Übersetzung: Matthias Drobinski)


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eu, o Sobrevivente (Ich, der Überlebende)

Claro que eu sei: só por sorte
Sobrevivi a tantos amigos. Hoje à noite, porém, em sonho
Escutei esses meus amigos dizerem: "Os mais fortes sobrevivem"
E eu me detestei.

Bertolt Brecht



Ich weiß natürlich: einzig durch Glück
Habe ich so viele Freunde überlebt. Aber heute nacht im Traum
Hörte ich diese Freunde von mir sagen: »Die Stärkeren überleben«
Und ich haßte mich.

Bertolt Brecht

Poemas de 1941-1947. In: Gedichte, 12a. ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2004. p. 882.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mais suave das leis (Du sanftestes Gesetz)

"Amo-te, mais suave das leis,
em que, lutando com ela, amadurecemos;
grande saudade, que não dominamos,
selva, de que nunca saímos,
cantiga, que em cada silêncio cantamos,
rede obscura,

em que os sentimentos fugidios se prendem.

Tão infinitamente grande foi o teu prelúdio
naquele dia em que nos começaste, -
e estamos tão maduros nos teus sóis,
tão expandidos e tão semeados em profundidade,
que, em homens, anjos e madonas,
agora podes te consumar mansamente.

Repousa tua mão na encosta dos céus
e suporta em silêncio o que na sombra te fazemos."

26.09.1899, Berlin-Schmargendorf  
Rainer Maria Rilke


(Du sanftestes Gesetz por Xavier Naidoo - Überfließende Himmel, 3° disco do Rilke Projekt, que reuniu vários artistas)

"Ich liebe dich, du sanftestes Gesetz,
an dem wir reiften, da wir mit ihm rangen;
du großes Heimweh, das wir nicht bezwangen,
du Wald, aus dem wir nie hinausgegangen,
du Lied, das wir mit jedem Schweigen sangen,
du dunkles Netz,

darin sich flüchtend die Gefühle fangen.

Du hast dich so unendlich groß begonnen
an jenem Tage, da du uns begannst, -
und wir sind so gereift in deinen Sonnen,
so breit geworden und so tief gepflanzt,
daß du in Menschen, Engeln und Madonnen
dich ruhend jetzt vollenden kannst.

Laß deine Hand am Hang der Himmel ruhn
und dulde stumm, was wir dir dunkel tun."

26.09.1899, Berlin-Schmargendorf
Rainer Maria Rilke


Extraído de: Das Stundenbuch (O Livro das Horas)

A Linguagem do Indizível: Juntamente com George e Hofmannsthal, Rilke (1875-1926) foi o criador de uma lírica standard (isto é, burguesa) da passagem de século na literatura alemã. "O Livro das Horas" (Das Stundenbuch), cuja monumentalidade se mostra na uniformidade de versos rimados, publicado em 1905, expressa a visão de mundo monista do poeta de uma maneira pouco usual em seu conteúdo.
Sua obra encontra ressonância no Brasil muito antes de cair em domínio público (1996), teve consequência mais remota nos poemas escritos por Vinicius de Moraes na década de 30. Além disso, passou por algumas gerações que o traduziram, como Cecília Meireles (Traduziu A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke), Lya Luft (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge), José Paulo Paes (Traduziu coletânea intitulada Poemas). Há, ainda, traduções de Paulo Rónai, Geir Campos, Dora Ferreira da Silva, Décio Pignatari, Augusto de Campos e de Manuel Bandeira. 
(em: Panorama da Literatura Alemã. Cadernos. Revista Entrelivros. n. 8, p. 60-62)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Demian

"A vida de cada homem é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, a insinuação de uma trilha. Nenhum homem já foi inteira e absolutamente ele mesmo; cada um, porém, pretende sê-lo, uns embrutecidos, outros mais lúcidos, cada um como pode. Cada um carrega consigo, até o fim, resquícios do seu nascimento, muco e cascas de ovo de um mundo primitivo. Alguns jamais serão gente, permanecem rã, lagarto, formiga. Alguns são gente por cima e peixe por baixo, mas cada um é um impulso da natureza rumo ao ser. E todos têm origens comuns, as mães, todos nós somos oriundos do mesmo abismo; mas cada um, tentativa e impulso das profundezas, se destina ao seu próprio fim. Podemos entender uns aos outros, mas interpretar cada um só pode a si mesmo."

Hermann Hesse


"Das Leben jedes Menschen ist ein Weg zu sich selber hin, der Versuch eines Weges, die Andeutung eines Pfades. Kein Mensch ist jemals ganz und gar er selbst gewesen; jeder strebt dennoch, es zu werden, einer dumpf, einer lichter, jeder wie er kann. Jeder trägt Reste von seiner Geburt, Schleim und Eischalen einer Urwelt, bis zum Ende mit sich hin. Mancher wird niemals Mensch, bleibt Frosch, bleibt Eidechse, bleibt Ameise. Mancher ist oben Mensch und unten Fisch. Aber jeder ist ein Wurf der Natur nach dem Menschen hin. Und allen sind die Herkünfte gemeinsam, die Mütter, wir alle kommen aus demselben Schlunde; aber jeder strebt, ein Versuch und Wurf aus den Tiefen, seinem eigenen Ziele zu. Wir können einander verstehen, aber deuten kann jeder nur sich selbst."

Hermann Hesse

Demian: Die Geschichte von Emil Sinclairs Jugend. 1a. ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag (Edição de bolso), 2007. p. 8.

domingo, 6 de junho de 2010

Ouve, Israel! (Höre, Israel!)

(À Guerra dos Seis Dias, 1967)

(...)

12.

Sobrevivestes àqueles
Que vos foram cruéis,
Agora subsiste em vós
A crueldade deles?

Vosso anseio era tornar-se
Como os povos da Europa
Que vos assassinaram.
Agora vos tornastes como eles.

Ordenastes aos derrotados:
"Tirai vossos sapatos!",
Como ao bode expiatório que
Afugentastes para o deserto

Na grande mesquita da morte
Cujas sandálias são de areia,
Mas eles não aceitaram o pecado
Que gostaríeis que pendurassem.

A marca dos pés descalços
Na areia do deserto
Resistiu aos resquícios
Das vossas bombas e tanques.

Erich Fried
















(Zum Sechstagekrieg 1967)

(...)

12

Ihr habt die überlebt
Die zu euch grausam waren
Lebt ihre Grausamkeit
In euch jetzt weiter?

Eure Sehnsucht war so zu werden
Wie die Völker Europas
Die euch mordeten
Nun seid ihr geworden wie sie

Den Geschlagenen habt ihr befohlen:
"Zieht eure Schuhe aus!"
Wie den Sündenbock habt ihr sie
In die Wüste getrieben

In die große Moschee des Todes
Deren Sandalen Sand sind
Doch sie nahmen die Sünde nicht an
Die ihr ihnen auflegen wolltet

Der Eindruck der nackten Füße
Im Wüstensand
Überdauert die Spur
Eurer Bomben und Panzer

Erich Fried

Do livro Gedichte nach dem Holocaust, 1974. Sobre o episódio ocorrido na década de 60, quando inúmeros prisioneiros de guerra egípcios foram obrigados a ir para o deserto descalços. Na areia quente, a maioria morreu.

sábado, 17 de abril de 2010

Ecce Homo

Sim, eu sei de onde venho!
Insaciado como a chama 
Incandesço e me consumo.
Tudo o que toco vira luz,
Carvão, tudo o que deixo:
Por certo, chama eu sou.

Friedrich Nietzsche













Ja! Ich weiß, woher ich stamme!
Ungesättigt gleich der Flamme
Glühe und verzehr' ich mich.
Licht wird alles, was ich fasse,
Kohle alles, was ich lasse:
Flamme bin ich sicherlich.


Friedrich Nietzsche

Extraído de: Die fröhliche Wissenschaft ("A Gaia Ciência")

domingo, 14 de março de 2010

Degraus (Stufen)

Assim como toda flor perde o viço e como toda juventude
Cede à idade, floresce cada degrau da vida,
Floresce toda sabedoria também e toda virtude
A seu tempo, e não pode durar para sempre.
O coração deve, em cada chamado da vida,
Estar pronto para a despedida e para o recomeço,
Para se dar, na valentia e sem qualquer
Luto, a outras novas ligações.
E em todo começo reside um encanto próprio
Que nos protege e nos ajuda a viver.

Transponhamos serenos espaço a espaço
E a nenhum nos prendamos qual a uma pátria.
O espírito do mundo não quer nos atar nem comprimir,
Ele quer elevar-nos degrau a degrau, alastrar-nos.
Mal nos habituamos a ser íntimos
De um ambiente, ameaça o relaxar-se.
Só quem está pronto para partir e viajar
Poderá eludir o hábito paralisante.

Acaso a hora da morte ainda nos envie
Ao encontro de novos espaços,
Jamais há de cessar o clamor da vida por nós...
Eia, pois, coração, despede-te e convalesce!

Hermann Hesse


Wie jede Blüte welkt und jede Jugend
Dem Alter weicht, blüht jede Lebensstufe,
Blüht jede Weisheit auch und jede Tugend
Zu ihrer Zeit und darf nicht ewig dauern.
Es muß das Herz bei jedem Lebensrufe
Bereit zum Abschied sein und Neubeginne,
Um sich in Tapferkeit und ohne Trauern
In andre, neue Bindungen zu geben.
Und jedem Anfang wohnt ein Zauber inne,
Der uns beschützt und der uns hilft, zu leben.

Wir sollen heiter Raum um Raum durchschreiten,
An keinem wie an einer Heimat hängen,
Der Weltgeist will nicht fesseln uns und engen,
Er will uns Stuf' um Stufe heben, weiten.
Kaum sind wir heimisch einem Lebenskreise
Und traulich eingewohnt, so droht Erschlaffen,
Nur wer bereit zu Aufbruch ist und Reise,
Mag lähmender Gewöhnung sich entraffen.

Es wird vielleicht auch noch die Todesstunde
Uns neuen Räumen jung entgegen senden,
Des Lebens Ruf an uns wird niemals enden...
Wohlan denn, Herz, nimm Abschied und gesunde!

Hermann Hesse

Poema do livro "O Jogo das Contas de Vidro" (Das Glasperlenspiel). Sämtliche Werke. Vol. 10. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2002. p. 366.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mar (Meer)

Quando se vem ao mar
deve-se começar a calar
deve-se perder o fio
dos últimos rebentos

e inspirar a espuma de sal
e o assobio agudo do vento
e expirar
e de novo inspirar

Quando se ouve a areia serrar
e o arrastar das pedras miúdas
em longas ondas
deve-se deixar de dever ser
e não querer mais querer
só mar

Só mar

Erich Fried (1921-1988)



Wenn man ans Meer kommt
soll man zu schweigen beginnen
bei den letzten Grashalmen
soll man den Faden verlieren

und den Salzschaum
und das scharfe Zischen des Windes einatmen
und ausatmen
und wieder einatmen

Wenn man den Sand sägen hört
und das Schlurfen der kleinen Steine
in langen Wellen
soll man aufhören zu sollen
und nichts mehr wollen wollen
nur Meer

Nur Meer

Erich Fried (1921-1988)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diante da Lei (Vor dem Gesetz)

Diante da Lei havia um guardião. A esse guardião dirigiu-se um homem do interior e lhe pediu que o deixasse entrar na Lei. O guardião disse, entretanto, que não podia lhe conceder a entrada naquela ocasião. O homem pensou e depois perguntou se ele então poderia entrar mais tarde. "É possível," disse o guardião, "mas não agora." Dado que o portão para a Lei fica aberto como de hábito e o guardião vigiava a sua entrada, o homem abaixou-se para ver o interior. Quando o guardião percebeu, riu e lhe disse: "Se tanto te seduz, tenta entrar, malgrado a minha proibição. Porém, presta bem atenção: eu sou poderoso. E sou apenas o mais reles dos guardiães. Em cada salão há um guardião mais poderoso que o outro. Eu sequer suporto o olhar do terceiro." Não contava com tais dificuldades o homem do interior; a Lei deveria ser acessível para todos e a toda hora, pensou ele, mas ao observar com rigor o guardião no seu casaco de pele, o seu nariz grande e agudo, a barba escura, tênue, comprida e desarrumada, achou melhor esperar pela autorização. O guardião deu-lhe um banco e o deixou sentar-se perto. Lá permaneceu dias e anos. Tentou entrar várias vezes, cansando o guardião com seus pedidos. O guardião lhe fazia pequenos interrogatórios com certa frequência, indagava-lhe sobre sua terra natal e sobre muitas outras coisas, eram perguntas despropositadas, como se fosse o trato de bons cavalheiros e enfim lhe dizia mais uma vez que ainda não poderia deixá-lo entrar. O homem, que com muito de valor se equipou para sua viagem, serviu-se de tudo para subornar o guardião. Ele tudo aceitava, mas lhe dizia: "Apenas aceito para não achares que foste negligenciado." Durante os vários anos, o homem observou o guardião quase incessantemente. Esqueceu-se dos demais guardiães, como se aquele fosse o único obstáculo para entrar na Lei. Nos primeiros anos, ele maldizia o lamentável acaso com ímpeto e em voz alta, mais tarde, à medida em que envelhecia, resmungava de si para si. Tornou-se pueril e, como já tinha passado anos estudando o guardião e reconhecia até as pulgas no colarinho de seu casaco, apelou a elas para que lhe ajudassem a persuadir o guardião. Sua vista por fim se esvaía e ele não sabia ao certo se escurecia à sua volta ou se eram os olhos que o iludiam. Pôde, todavia, bem reconhecer um clarão no escuro, que inextinguível irrompia portão afora. Ele já não vive mais. Antes da sua morte, reuniram-se na sua mente todas as experiências do período para uma pergunta, que até então ele não havia feito ao guardião. Fez-lhe sinal, pois não conseguia mais erguer o corpo enrijecido. O guardião teve que se inclinar em sua direção, já que a diferença de estatura tinha se acentuado para dissabor do homem. "O que ainda queres saber?" perguntou o guardião, "tu és insaciável." "Todos aspiram à Lei," disse o homem, "como pode, em tantos anos, ninguém além de mim ter buscado entrar nela?" O guardião reconheceu que o homem já estava no fim e, para alcançar ainda a audição extenuante, vociferou: "Aqui ninguém pôde entrar antes porque esta entrada era destinada somente a ti. Agora já posso ir-me e trancá-la."

Franz Kafka, 1914. 


Vor dem Gesetz steht ein Türhüter. Zu diesem Türhüter kommt ein Mann vom Lande und bittet um Eintritt in das Gesetz. Aber der Türhüter sagt, daß er ihm jetzt den Eintritt nicht gewähren könne. Der Mann überlegt und fragt dann, ob er also später werde eintreten dürfen. "Es ist möglich," sagt der Türhüter, "jetzt aber nicht." Da das Tor zum Gesetz offensteht wie immer und der Türhüter beiseite tritt, bückt sich der Mann, um durch das Tor in das Innere zu sehn. Als der Türhüter das merkt, lacht er und sagt: "Wenn es dich so lockt, versuche es doch, trotz meines Verbotes hineinzugehn. Merke aber: Ich bin mächtig. Und ich bin nur der unterste Türhüter. Von Saal zu Saal stehn aber Türhüter, einer mächtiger als der andere. Schon den Anblick des dritten kann nicht einmal ich mehr ertragen." Solche Schwierigkeiten hat der Mann vom Lande nicht erwartet; das Gesetz soll doch jedem und immer zugänglich sein, denkt er, aber als er jetzt den Türhüter in seinem Pelzmantel genauer ansieht, seine große Spitznase, den langen, dünnen, schwarzen tatarischen Bart, entschließt er sich, doch lieber zu warten, bis er die Erlaubnis zum Eintritt bekommt. Der Türhüter gibt ihm einen Schemel und läßt ihn seitwärts von der Tür sich niedersetzen. Dort sitzt er Tage und Jahre. Er macht viele Versuche, eingelassen zu werden, und ermüdet den Türhüter durch seine Bitten. Der Türhüter stellt öfters kleine Verhöre mit ihm an, fragt ihn über seine Heimat aus und nach vielem andern, es sind aber teilnahmslose Fragen, wie sie große Herren stellen, und zum Schlusse sagt er ihm immer wieder, daß er ihn noch nicht einlassen könne. Der Mann, der sich für seine Reise mit vielem ausgerüstet hat, verwendet alles, und sei es noch so wertvoll, um den Türhüter zu bestechen. Dieser nimmt zwar alles an, aber sagt dabei: "Ich nehme es nur an, damit du nicht glaubst, etwas versäumt zu haben." Während der vielen Jahre beobachtet der Mann den Türhüter fast ununterbrochen. Er vergißt die andern Türhüter und dieser erste scheint ihm das einzige Hindernis für den Eintritt in das Gesetz. Er verflucht den unglücklichen Zufall, in den ersten Jahren rücksichtslos und laut, später, als er alt wird, brummt er nur noch vor sich hin. Er wird kindisch, und, da er in dem jahrelangen Studium des Türhüters auch die Flöhe in seinem Pelzkragen erkannt hat, bittet er auch die Flöhe, ihm zu helfen und den Türhüter umzustimmen. Schließlich wird sein Augenlicht schwach, und er weiß nicht, ob es um ihn wirklich dunkler wird, oder ob ihn nur seine Augen täuschen. Wohl aber erkennt er jetzt im Dunkel einen Glanz, der unverlöschlich aus der Türe des Gesetzes bricht. Nun lebt er nicht mehr lange. Vor seinem Tode sammeln sich in seinem Kopfe alle Erfahrungen der ganzen Zeit zu einer Frage, die er bisher an den Türhüter noch nicht gestellt hat. Er winkt ihm zu, da er seinen erstarrenden Körper nicht mehr aufrichten kann. Der Türhüter muß sich tief zu ihm hinunterneigen, denn der Größenunterschied hat sich sehr zu ungunsten des Mannes verändert. "Was willst du denn jetzt noch wissen?" fragt der Türhüter, "du bist unersättlich." "Alle streben doch nach dem Gesetz," sagt der Mann, "wieso kommt es, daß in den vielen Jahren niemand außer mir Einlaß verlangt hat?" Der Türhüter erkennt, daß der Mann schon an seinem Ende ist, und, um sein vergehendes Gehör noch zu erreichen, brüllt er ihn an: "Hier konnte niemand sonst Einlaß erhalten, denn dieser Eingang war nur für dich bestimmt. Ich gehe jetzt und schließe ihn."

Franz Kafka, 1914.


De: Erzählungen (Contos). Frankfurt am Main: Fischer Verlag: 1975, p.120s.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Noite de Luar (Mondnacht)

Foi como se o céu
serenamente beijasse a terra,
E que ela, no resplendor de flores,
Com ele tivesse de sonhar.

O ar passou pelos campos,
Leve se agitavam as espigas,
Manso sussurravam os bosques,
Tão estrelada era a noite.

E minh'alma espraiou
suas vastas asas,
Voou pelas terras plácidas,
Como se voasse p'ra casa.

Joseph von Eichendorff, 1837.


Es war, als hätt der Himmel
Die Erde still geküsst,
Dass sie im Blütenschimmer
Von ihm nun träumen müsst.

Die Luft ging durch die Felder,
Die Ähren wogten sacht,
Es rauschten leis die Wälder,
So sternklar war die Nacht.

Und meine Seele spannte
Weit ihre Flügel aus,
Flog durch die stillen Lande,
als flöge sie nach Haus.

Joseph von Eichendorff, 1837.